Live básica
- PC Junior
- 20 de mai. de 2020
- 4 min de leitura

Se passaram mais de 60 dias desde que o isolamento foi instituído e o que mais temos lido e escutado nos últimos dias é a hashtag #fiqueemcasa. Em meio a essa sentença imposta pelo Covid-19 vem a polêmica de que nem todos têm condições para ficar em casa, precisam sair para trabalhar, enfim, tudo aquilo que você já sabe.
O preço da tirania, é o isolamento.
Etienne de La Boétie
O fato é, aqueles que são menos assistidos pelo estado, acabam sofrendo com as consequências dessa medida. Não quero entrar na polêmica se devemos aderir ao lockdown, ou se temos que flexibilizar o isolamento, já existem muitos especialistas no assunto, tanto do time da direita quanto do time da esquerda. O que pretendo refletir é a respeito daqueles que não tem condições e estão sofrendo ainda mais com o passar dos dias.
As necessidades são as mais diversas possíveis, desde um item de higiene básico, até a falta de conhecimento para instruir seu filho em determinada matéria, isso se tiver acesso à internet, é claro! Mas o ponto com que mais me preocupo é com a falta de alimento, e pensando nisso me questionei: Será que estamos realmente pensando no próximo?
Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais: o excesso de gente impede de ver as pessoas...
Mario Quintana
Eu precisava responder a essa dúvida para que não ficasse somente no achismo e então me propus a realizar algumas pesquisas. De acordo com as minhas “investigações”, que não foram densas o suficiente para retratar com precisão o cenário geral da população brasileira, pude me deparar com algo que “desconfiei desde o princípio”. Estamos mais preocupados em qual será a próxima “live” do que como posso ajudar. Você pode argumentar da seguinte maneira: Mas as lives geram doações! Eu vou falar por mim, vi uma única live e sabe quanto eu doei? Zero! E você, que viu algum desses shows virtuais doou algum valor? Fica o questionamento e só você sabe a sua verdade.
Possivelmente, algumas pessoas estão na mesma realidade que eu. Pensando nisso, me propus em fazer uma pesquisa para tentar entender o comportamento do indivíduo que se julga “preocupado com o próximo”. E identifiquei que a preocupação geral da nação é em saber qual será o próximo show e não onde posso contribuir.
Usei como base de pesquisa o google trends, e já antecipo, não é a pesquisa mais assertiva do mundo, mas serviu como um esboço de um panorama que sabemos ser verdadeiro em nosso íntimo. Pois estamos mais preocupados com o nosso bem estar do que se o meu próximo tem ou não o que comer. É mais importante eu ter internet para poder ver aquele artista ficar bêbado, do que eu doar uma parcela do meu provedor de internet em favor de alguma família carente. Observe que o gráfico abaixo monstra apenas o nível de interesse em um determinado assunto, comparado com outro. E sem nenhuma surpresa, a busca pelo tema Live é avassaladora frente aos demais assuntos pesquisados.
Eu posso até concordar com o argumento de que as lives geram doações, porém, a proporção entre views de determinado artista versus doações realizadas é bem discrepante. Me atrevo a especular, que muitas dessas lives atendam ao único e verdadeiro propósito de todo showbusiness, que é a autopromoção e a lucratividade obtida com as visualizações. Pois sempre existem empresas e pessoas que se aproveitam de qualquer situação para expor sua marca e sua pseudo-generosidade, visando a conquista de mais uma porcentagem em seu objetivo dentro do market share.
Prefiro acreditar, que essas doações realmente cheguem para aqueles que necessitam, mas, e aquelas pessoas que você tem conhecimento da real necessidade? Eles estão sendo beneficiados por essas lives da solidariedade? Percebo que nem aquele que realiza a live, ou nós que assistimos a esse evento, estamos realmente preocupados com o próximo mais carente. Sinto que a superioridade descabida e a falta de compaixão estará sempre presente em corações corruptos e egoístas. Em tempos de Lives da autopromoção o que reverbera é o ego e não a compaixão.
Com medo de ser um desses egoístas virtuais que inflamam seu descontentamento com a política e que efetivamente pouco faz em prol dos que mais necessitam, me desafiei em ser a diferença para alguém, alguem que está do meu lado, no meu bairro, no meu círculo de amigos, e desafio você para que também o faça. Você não precisa espalhar aos quatros cantos a sua contribuição, nem o quanto você é generoso.
Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita;
Para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente.
Mateus 6:3,4
Apenas o faça sem nenhuma divulgação, promoção ou hashtag. Seja melhor não por aparência, mas por coração. Busque alguma instituição, igreja, ONG, que esteja empenhado em ajudar quem realmente precisa e deixe o ódio virtual de lado, afinal de contas só servem para pulverizar mais ódio.
Seja mais live e menos views.
PC Junior
Ficamos sem ar por causa de Manaus e coube a celebridades e corporações realizar o que era de responsabilidades das autoridades políticas. Mas, sem antes de inflar seus feeds de cilindros doados na ância por likes. O texto é do ano passado, a situação é de agora e a reflexão é para vida. Boa leitura 📚!